domingo, 21 de novembro de 2010

O texto fora do contexto não tem validade.

— Em realidade, cidadãos atenienses, para demonstrar que não sou réu, segundo a acusação de Meleto, não me parece ser necessária longa defesa, mas isso basta. Aquilo, pois, que eu dizia no princípio, que há muito ódio contra mim, e muito acumulado, bem sabeis que é verdade. E isso é o que me vai perder, se eu me perder… E não Meleto, ou Anito, mas, a calúnia e a insídia do povo: pela mesma razão se perderam muitos outros homens virtuosos, e outros ainda, creio, serão perdidos; não há perigo que a série se feche comigo. Mas talvez pudesse alguém dizer: Não te envergonhas, Sócrates, de te aplicardes a tais ocupações, pelas quais agora está arriscado a morrer?

— Por favor, por favor! – interrompeu o juiz, dirigindo-se ao réu – Não é um texto que lhe inocentará, mas sim o contexto no qual te inseres...

Obs.: O primeiro parágrafo é um trecho de Apologia de Sócrates, escrito por Platão. Para ler mais, acessem: http://www.consciencia.org/platao_apologia_de_socrates.shtml.

Orgia de Inocência

Borboletas
Meretrizes
Fazem programa
No jardim

Tão promíscuos
Os beija-flores
Beijam rosas,
Beijam dálias,
Beijam jasmins.

Todo dia é assim:
Uma orgia de inocência
No meu jardim.

De: Ivan Santanna.

http://pensador.uol.com.br/autor/Ivan_Santtana.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Texto 007 – Indiferença (Parte 1)

— Pois como ousas fugir, nobre senhor?

Tu, que se dizias tão indiferente a tudo isso!

Ao menos assuma tua contradição

Ou lançarás tua honra no abismo.


 

— Não me venha com meias palavras, caro colega.

Pois se teus polegares tu ainda não aprendestes a usar,

Não serei eu quem lhe ensinará a lógica dos homens.

Mas para verdes o quão generoso sou, estou disposto a exemplificar.


 

— Duvido muito que expliques algo.

Tu, com tua lógica furada, apenas gira em torno de si mesmo,

Tentando ludibriar os incautos e estafermos.

Pois vá lá: Se tu se dizes indiferente, por que se incomodar?


 

— Comecemos por algo próximo, amigo Shakespeare.

Tomemos um cadáver qualquer.

Pútrido, fétido e imprestável.

Sou indiferente aos mortos, e tu?


 

— Para mim pouco importa seu passado de mentiras,

Não me interesso por seu presente de larvas

E muito menos por seu futuro de pó!

De pleno acordo, somos indiferentes aos mortos!


 

— Pois muito bem.

Mas se desenterrarem uma pilha de ossos…

Ossos de algo que já não é. Restos de algo que um dia foi…

E jogarem-nos sob seus pés, ao seu lado, em tua alcova ou na mesa em que tu ceias?


 

— Matarei o guardião da necrópole!

E enterrarei o bufão autor da facécia na mesma cova do pobre cadáver.

Não se brinca com o repouso dos mortos,

Pois eles não zombam de nossa vida insone.


 

— Belas palavras! Lembro-me até do fundador da parcimônia ao ouvi-las.

Mas diga para mim, nobre colega:

Foste tu capaz de compreender por que tão distante me faço de vós

Quando surgem fedendo a cadáver?

sábado, 21 de agosto de 2010

Texto 006 - Humano

É pena o que Eu sinto por ti,

Por seres quem tu és,

Por achares que pensas,

E por pensares como tal.


Lamento ter te conhecido,

Ter acreditado em você,

Ter visto apenas tua máscara de carne

E não ter olhado nos teus olhos — evitar-Me-ia muita dor…


Lamento ter te perdoado uma.

Lamento ter te perdoado duas.

Lamento ter te perdoado todas as vezes

Em que agiu conforme foste programado para agir.


Não era o que Eu queria;

Não foi o que Eu planejei;

Tudo se dissolveu com teus atos baratos.

Tua vulgaridade destruiu a pureza das lágrimas — Oh! Tão belas pérolas que Eu criei.


Por séculos Eu odiei ter te idealizado.

Por milênios Eu lamentei o tempo que perdi.

Enquanto milagres tão mais belos poderiam ser feitos,

Desperdicei-Me todo em tuas causas.


Tua baixeza Me destruiu.

Meus sonhos se liquefizeram.

Tua desconsideração mostrou-Me o quão cego Eu fui — e sou!

E paradoxalmente, imerso na escuridão, vi que sou um Deus pateticamente…


Humano.

Tanto quanto tu és e igualmente digno de pena.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Texto 005 - O pescador e a minhoca

Ajeita-te nobre minhoca.

Ajeita-te, pois sois perfeita para o que pretendo.

Não, não… Não seja modesta, pobre minhoca.

Acompanhe meu raciocínio, com teu cérebro tubular,

Ninguém melhor que tu eu serei capaz de encontrar:

Tu não imaginas o que quero;

Tu não sabes o que faço nem o que já fiz;

Tu não tens outras amigas minhocas para lhe contarem sobre mim;

Terás de correr o risco, terás que confiar em minhas doces palavras.

Mas garanto-te: Será bom…

Ótima escolha, nobre minhoca.

Este instrumento metálico tão belo e contorcido chama-se anzol.

Com ele te levarei para lugares jamais vistos antes.

Verás a profundeza das águas.

Sentirás o vento em tua epiderme úmida.

E se possuíres glândulas para isso, tu ainda sentirás a adrenalina da aventura!

Todavia, como prazeres exigem dores, tu sentirás uma leve fisgada…

Pronto! Nem doeu, não é mesmo?

Vejas agora como a linha sobe e desce…

É bom, não?

E te garanto que o subir e descer nem é o melhor.

Pois lá vamos nós! Este é o grande rio minhoca, sinta a água!

(Algum tempo depois…).

Boa tarde senhor peixe, é um prazer conhecê-lo.

Vê este instrumento de metal?

Chama-se anzol? Com ele tapeei uma minhoca,

E agora tu irás para a panela.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Texto #004 - Egomania

Eu sou.

Sou o instinto puro e simplesmente racional.

Sou o pai da verdade e da mentira.

Sou o criador de Deus e da Ciência.

Sou meu próprio Senhor e ainda por cima, livre…


Eu odeio.

Odeio o movimento e a inércia.

Odeio a futilidade e a sensatez.

Odeio a paz e a guerra.

Odeio você. Odeio a mim mesmo e odeio odiar.


Eu lamento.

Lamento ouvir Copérnico com suas asneiras.

Lamento ver Darwin com suas involuções.

Lamento ler as mentiras nas bibliotecas.

Lamento que não saibam que Eu sou a medida de todas as coisas.


E quando tu vieres até mim, sentirás o peso de tuas imprecisões e verás o quão imperfeito tu és perante minha precisão simples, concisa, inexplicável e pura. Olhar-te-á no espelho e verás tuas rugas aproximando-se. Ouvirás Azrael chamando teu nome, enquanto eu carrego sua ainda letal e afiada gadanha.

Chores ou não, temas ou não, teus sentimentos não se comparam aos meus, pois tu e todos os outros são apenas… Vocês. Jamais verei o mesmo vermelho que vós e, mesmo que o visse, não me interessaria, pelo simples fato de que ele não seria Meu. Abandono-lhes no vácuo da existência, pois Eu tenho a Mim, isso basta... Eu sou, tautologicamente, Eu.

O prazer, certamente, é todo seu.

Pode chamar-me de Egomania.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Madrugada de Inverno


Madrugada solitária de inverno. Estou deitado e sem sono, estranhando a falta de novidade nisso enquanto alguns mosquitos me imploram a morte, voando bem perto. Só de maldade os deixo viver, batendo contra a parede branca, confusos, sem saberem onde é a saída desse quarto miúdo, cujo os únicos refúgios da luz são embaixo da cama e dentro da minha alma. De repente, como se por milagre, nada acontece, e tudo continua exatamente na mesma agradável monotonia em que estava. As horas passam, o sono não chega, alvorece.
O tempo não parou junto com os sons da noite, sei disso, mas eles deram lugar a barulhos de motores esquisitos, e é como se tivesse parado, pois me sinto dormindo-acordado de dia, e, acreditem, tem gente que anda de carro e acha isso errado. Essas pessoas barulhentas passam na minha rua o tempo todo com seus carros, algumas vão trabalhar, para ganhar dinheiro para alimentar os filhos para que eles depois trabalhem e ganhem dinheiro pra comprarem um carro. Dizem que as pessoas que querem viver o suficiente para comprarem o seu devem dormir direito, então acho que não terei um automóvel. Não por falta de vontade de viver, mas por estar preso a noite e ao mesmo tempo estar condicionado a ter que conviver com os que se consideram normais, e desperdiçam suas madrugadas dormindo enquanto a mais bela sinfonia é tocada, e a mais fantástica mágica, a do orvalho pousando sobre as folhas, acontece, enquanto a magnífica obra do quarto dia é exposta no manto negro que reveste o milenar firmamento... Como pode o mundo dormir a noite?
Tudo bem... Compreendo que estou meio errado, os ateus poderão dizer que até meu deus dormiu todo santo dia (mesmo antes de criarem a definição do que é um dia), amigos preocupados... Outros podem achar a morte precoce é motivo suficiente para que repousemos, oras, como posso eu, um mero mortal, ficar acordado? Devo morrer toda noite, como todos morrem, de bocado em bocado...
Quer saber, o mundo inteiro deve estar certo, vou dormir, para estudar, para ganhar meu diploma, pra estudar mais, para trabalhar, pra ganhar outro diploma, fazer uma montanha de certificados, e poder ganhar dinheiro pra comprar meu carro. Porque, por menos previsível que eu seja a curto prazo, às vezes me sinto mais um desses mosquitos motorizados batendo a cara contra a parede branca de um quarto pequeno numa noite de inverno.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Texto #003 – Quod erat demonstrandum


Continuando a série de postagens sobre a escrita – tema sobre o qual não tenho gabarito para falar – vamos analisar um tipo textual pelo qual sou apaixonado: Demonstrações Matemáticas.
Claro que não podemos simplesmente analisar tal estilo fora de um contexto bem fundamentado, haja vista que o texto fora do contexto não tem validade. Com efeito, para prosseguirmos de maneira inteligível é preciso ter uma noção do pano de fundo no qual as demonstrações são empregadas.
Fazendo uma analogia com nosso mundo, consideremos a Matemática como sendo um grande tribunal. Neste tribunal, o idioma oficial é a Lógica, o Código Civil é a base Axiomática e os réis são as Proposições. O juiz chama-se Teoria dos Conjuntos. Num julgamento matemático, define-se o valor da Proposição: Falso ou Verdadeiro.
Durante o julgamento de uma proposição, o juiz consulta o código civil e, utilizando o idioma oficial, convoca as testemunhas, neste caso, os Exemplos e Contraexemplos. Contraexemplos destroçam qualquer chance de considerarmos a proposição verdadeira. Graciosamente, caso não haja contraexemplos, exemplos não serão suficientes para provar a veracidade da proposição. Então entra em cena o promotor: o matemático. A este último, cabe a argumentação por meio do Código Civil, defendendo a validade ou a falsidade da proposição. Contudo, ele não tem compromisso com a proposição em si mesma, mas apenas com seu valor lógico.
Com efeito, uma demonstração matemática não é apenas a argumentação realizada pelo matemático, mas todo o julgamento.
A beleza existente em tal tipo de texto reside em sua estruturação concisa e praticamente autoexplicativa. A concisão é intrínseca às demonstrações, haja vista que rodeios não tornam algo mais verdadeiro do que este seria se provado de maneira simples. Aliás, vale a ressalva de que não são as demonstrações que tornam as proposições verdadeiras ou falsas. De fato, demonstrações apenas nos provam o valor das proposições. Toda proposição carrega implicitamente em si mesma sua veracidade ou falsidade. Logo, como a ausência de concisão não contribui com a leitura, não há motivo para não ser conciso. Logo, é-se conciso.
A autoexplicação decorre imediatamente da concisão com que se estrutura e articula a demonstração. É claro que, quanto mais complexo (lê-se abstrato) o tema abordado, mais difícil será compreender os passos descritos em cada verso, mas isso não contradiz a autoexplicação da demonstração. É fácil ver que a dificuldade em entender uma demonstração arbitrária de um tema genérico prova unicamente a limitação computacional da mente do leitor. Além disso, a sutileza com que se provam ideias absurdamente fortes é muitas vezes intangível para aqueles que não estão acostumados com o assunto e magnífica para os adeptos dessa arte.
Poder-se-ia, porém, supor que a grande falha de toda essa estruturação lógica reside na necessidade de pressupor axiomas que, se falsos, abalariam toda a Matemática com paradoxos. Ora, a não ser que escolhamos axiomas autodestrutivos, não há o que temer: a Matemática está isenta da realidade.
De fato, por mais aplicações reais que se possa encontrar para a Matemática, ela não depende desta. Para tanto, suponha que todas as mentes racionais do universo se extinguissem num dado instante t. A Matemática não poderia ser apreciada por alguém, mas isso não refutaria todas as proposições provadas a partir de suas definições (a inexistência de leitores não implica a inexistência dos livros). Se estendermos o mesmo raciocínio, e supusermos que o universo deixe de existir e tudo se torne nada, teremos que, neste caso, obviamente, a Matemática não existirá, mas também não será influenciada pela realidade, haja vista que esta também não existirá em tal situação hipotética.
Então, caso o universo ressurgisse, a Matemática tornaria a existir envolta por uma realidade arbitrária, mesmo que nada supusesse uma base axiomática análoga à que temos hoje e sobre a qual a Matemática se ergue, haja vista que, por hipótese, a Matemática existe hoje sobre uma base axiomática. Ou seja, não seria necessário que algo supusesse tal base, uma vez que ela existe por hipótese.
É claro que tal indiferença existencial é puramente teórica. Sem observadores, a Matemática não seria detectável, uma vez que o próprio conceito de detecção não existiria, posto que este pressuponha algo capaz de detectar: um observador/detector. Logo, a existência ou potencial existencial da Matemática passaria despercebido por todo o Universo. Na prática, seria como se a Matemática não existisse.
Continuemos. Por ser teoricamente extrínseca à realidade, a Matemática torna-se por si só uma realidade à parte, um universo lógico e idealizado tão flexível e mutável quanto um cérebro humano, ao mesmo tempo em que possui a rigidez utópica da certeza intangível na realidade prática.
Uma vez provada a inabalável indiferença teórica da Matemática, podemos definir poeticamente a Demonstração Matemática como sendo o veículo por meio do qual se pode viajar em seu interior, ou a chave capaz de abrir todas as portas de seus inabitados e incontáveis salões, conectados por uma rede intrincada e n-dimensional de corredores topologicamente conexos. É claro que, matematicamente, há uma definição para o próprio conceito de definição (e, por que não?) de demonstração, mas isso foge do escopo de nossa realidade, onde palavras logicamente estruturadas são mais belas do que simples definições impessoais. Absurdo.
Quod Erat Demonstrandum.

Por que se afirma que a didática é o eixo da formação profissional?

Antes de iniciarmos nossas elucidações, notemos que, muito provavelmente, o questionamento se refere à formação profissional do professor, pois, temos de convir que a didática não seja algo necessário a um médico ou a um publicitário, isto é, existem profissões que não estão voltadas para a educação.
Pois bem, poderíamos tomar a afirmação “a didática é o eixo da formação profissional [do professor]” como um comentário irônico, de modo a instilar a ideia de que se encontram na didática as principais dificuldades dos professores em formação e, por conseguinte, é nessa área que eles geralmente falham ou, como popularmente é dito, nessa área “eles rodam”. Ora, se os professores “rodam na didática”, significa que a didática é o eixo de rotação dos professores. Seguindo tal linha raciocínio, nossa conclusão está em acordo com nossos conhecimentos sobre física e mecânica.
É claro que a afirmação (provavelmente) não tem um significado tão vago quanto o que acabamos de construir, contudo, o parágrafo anterior, apesar de aparentemente pífio, sugere um provável significado mais profundo e moralmente aceitável para a afirmação.
De fato, os professores – tantos os formados quanto os que estão em formação – rodam na didática, mas não no sentido popular supracitado da expressão. Com efeito, poderíamos afirmar que o professor orbita a didática, pois é nela que se encontram as ferramentas necessárias para que ele faça o que é pago e treinado para fazer, isto é, ensinar de maneira efetiva seus educandos – não discutiremos neste texto o significado de um “ensino efetivo”. Ou seja, sem a didática, o professor vaga como um asteroide perdido no cosmos, sem um ponto de referência gravitacional que lhe dê um caminho inteligível, ou no mínimo, uma órbita previsível.
Dessa forma, se supusermos que exista algum professor que não tenha como eixo de sua formação – e de sua prática docente – a didática, estaremos assumindo como verdadeira a tese de que existe um professor sem conhecimentos básicos sobre métodos, técnicas, materiais, conceitos pedagógicos, entre muitas outras peculiaridades sem as quais a educação torna-se apenas uma palavra vazia sem correspondência com nossa realidade social. Logo, tal professor contraria nossa definição do que venha a ser um “professor” de fato. Logicamente, isto é um absurdo.
No entanto, ao contrário do que ocorre na matemática, este absurdo existe e não se evanesce ao constatarmos sua inconsistência lógica, isto é, ele não desaparece apenas por sabermos que ele não deveria existir. Portanto, cabe à nossa geração de professores – e às próximas – mudar esse quadro absurdo no qual se encontra a educação.
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Obs.: Esse texto foi originalmente redigido como um trabalho para a disciplina Fundamentos da Didática.

domingo, 18 de abril de 2010

Doce

Desde cedo gostamos do que é doce e, ao crescermos, surgem exceções.
Ao crescermos, conforme mudam os desejos,  nos atraimos cada vez mais pela carne.
O desejo que sentimos cada vez mais pela carne às vezes está carregado de veneno.
O veneno que carregamos recheia nossa carne,  que é por natureza traiçoeira...
E descobrimos ao final de toda essa tragédia iminente o quanto esse veneno é doce.
E a troca de venenos não mata, mas faz o contrário...
E tudo o que somos de repente não passa de desejo, carne, veneno e doce.